quarta-feira, 6 de março de 2019

Palavras de um homem exótico, estranho e peculiar...


No trabalho, como todo mundo que vive, algumas vezes será maltratada.

Seu esforço não será valorizado, por isso, triste e no final do expediente, fechará a porta do departamento e apagará todas as luzes para que o reflexo da janela não possa atrapalhar a vista da cidade. Não irá para casa, pois lembrou que o que te espera são cômodos de luzes apagadas e, estando lá, acenderia apenas a do quarto para, após despir-se, ficar no escuro, dormir nua e, banhada de hidrantes, entregar-se a um cansaço solitário.

“Do alto, toda dor é insignificante e a vista apaixonante”. Um dia te disse e da janela pode sentir cada palavra.

Vivo com um pé na realidade, como um verdadeiro pai de família cumprindo suas responsabilidades e errando mesmo que desejando acertar. No entanto, o outro vive e sempre viverá quando não em outras galáxias, muito além delas. Tudo muito complexo você dizia, mas um dia te disse: “O mundo é indecifrável e belo”.

Agora, da janela, pode sentir cada palavra, palavras de um homem exótico, estranho e peculiar, entretanto, sensível o bastante para fazê-la sentir-se amada e protegida em todos os sentidos possíveis.

Por diversas razões, disseste que sou um perdido e se perdido é querer o bem, sou sim, mas para que conquiste o que considera impossível, para te aquecer neste cotidiano tão frio, para que, dentro deste mundo tão desamoroso, ame perdidamente quando soar da tua boca uma música de ninar para nossa filha e, uma vez teu corpo estando bem colado ao meu, podermos dançar um jazz lento e suave à meia-luz. Quem sabe “At Last” ao som de Beegie Adair? Sim, nossa música, inclusive, nunca esqueça, nunca mesmo: Sou um perdido porque sou poeta e nesta sorte encontro minha força e lucidez!

Da janela, a saudade bate ainda mais forte.

Neste momento, procura pelas minhas frases que considerava tão maçantes, pois somente elas explicam o que ninguém quer entender, somente elas te resgatam deste vazio por onde anda só e sem rumo. Linda, perdeu-se, mas a vida começa agora, só que intensa, instigante e repleta de cores.

Da janela, sente-se uma poeta.

Dezenas de versos ganham vida no traçado de cada rua, no som barulhento dos carros, nas pessoas correndo pelas calçadas para não perder o ônibus. Tudo é poesia... Você chora copiosamente, mas é de alívio, de gente perdida, gente liberta. Cada gota cai numa métrica perfeita, pintadas por mãos habilidosas e sob a tutela de grandes músicos. Seus sentidos são canetas, pincéis e instrumentos musicais que se encontram no espaço-tempo.

De súbito, a chuva toma conta do lado de fora, um vento forte sopra e de um lance abre a janela.

Em teu rosto água da chuva viram lágrimas e lágrimas viram água da chuva. Por intuição, olha para frente e me vê em pé no topo de uma imensa antena, firme como uma rocha a enfrentar raios, ventanias e uma tempestade torrencial, mas eternamente de braços abertos e com o aquele sorriso que nunca esqueceu. Com amor grito o teu nome e, indecisa, ainda não sabe se suas poesias são fortes o bastante para impedir uma queda. Porém, entre uma rima e outra, sentiu-se levitar....

E pula…

Molhada flutua…

Molhados nos beijamos…

Suada acorda e, amando…

O telefone pega com aflição…

Me liga e diz: Sim, você é são...

Somos poetas, uma poética união...

terça-feira, 5 de março de 2019

Ananda, Bianco e a imperfeição.

Você ama verdadeiramente algo, porém, por vezes, bem mais forte e real é a impossibilidade de vivê-lo. Dê-me de volta a saúde, nunca terás, dê-me de volta os entes queridos, nunca terás, dê-me de volta a pureza infantil, nunca terás, dê-me de volta aquele par romântico, nunca terás, dê-me de volta a mim mesmo, nunca terás. Todos perderam algo no caminho e naquele bolso mais procurado, encontra somente lembranças. Mexe-se com a mão por cada canto para uma vez encontrando-as, possa colocá-las em cima da mesa e sorrir como criança ou chorar como adulto ao observá-las.

Ananda controlava-se para não chorar de dia, mas chorava de noite. Enroladinha em folhas, escondia-se para que não olhassem sua asa menor do que a outra. Imperfeita diante dos seus próprios olhos, sofria quando a observar a Árvore da Plenitude, bem como a perfeição de seus moradores belos, educados, altivos e seguros de si. Todos os pais sem distinção eram reis e rainhas e todos os filhos e filhas eram, igualmente, príncipes e princesas. A pura e mais perfeita igualdade. 

Por não suportar tanta luz irradiando sua escuridão, desde adolescente começou a viver em uma pequena e desfolhada árvore ao lado desta bem maior e frondosa, inclusive, distante o bastante para não ver os seus habitantes e eles não a verem. Apesar de saberem de sua existência, a vida seguia para a imperfeita e os perfeitos em uma dissimulada percepção da realidade. Os pais morreram quando ela ainda estava no ovo, irmãos não deram tempo de nascer e a vida correu para que ficasse sozinha e quase imóvel, posto que seu problema físico a impedia de voar. 

Por estes e inúmeros traumas nascidos do silêncio do seu peito, vivia a retirar lembranças dos bolsos ou inventá-las para que sentisse orgulho de algo que não tenha vivido. Um pássaro que não voa está tolhido de sua essência, sua vida são as nuvens e sem elas, nem passado, nem presente e nem futuro. Ela olha para o lado esquerdo e ver a perfeição de todos, para o direito o penhasco e na frente o horizonte. 

A garganta fecha, um frio na barriga desespera, um aperto no coração sufoca e a desesperança toma conta. Tudo é cinza, só enxerga o cinza, cinza por todos lados. 

A vida bem que podia ser mais simples, não tinha coragem de se matar, mas seria perfeito um dispositivo orgânico que atestasse o nível de tristeza para que fosse expulsa do planeta terra mesmo que para o inferno, mas desde que bem longe de tudo. Ela agora, uma recém adulta, sentia-se ingrata por pensar assim, a vida é sempre a melhor opção. Porém, daí vinha a pergunta: que vida? 

As 21hs e correndo de um frio de 5 graus, entra para dentro de sua toca. Como criança que se perdeu da mãe, deita-se com o rosto fazendo bico de choro, lágrimas descem aos montes e, soluçando, encolhe-se deitada no chão pedindo a Deus ajuda para que tivesse algo verdadeiro, mesmo que um dia escorresse pelos pés e nunca mais pudesse sentir. No decorrer da noite, acorda assustada por várias vezes, deita-se em cantos diferentes para ver se a dor diminui, sai para olhar as estrelas e neste confuso movimento, como todas as noites, desaba e acorda de manhã pior do que antes de dormir. 

Na tarde seguinte um pássaro chamado Bianco chega e surpreende. Como pode um perfeito, muito mais do que um “bom dia, boa tarde ou boa noite”, procurar sua companhia? De cara pediu que fosse embora, mas ele implorou que não, precisava ficar a sós com alguém. De onde vinha não conseguia falar com profundidade do que sentia, mas algo dizia que com ela isso seria possível. Ananda, estranhamente, abriu-se de cara e falou que era infeliz por ser imperfeita, enquanto ele, em seguida, disse que era infeliz por ser perfeito. Olharam-se fixamente e, sem pudor, puderam analisar mutuamente suas lágrimas. Algo de bom aconteceu... 

Todas as tardes ele aparecia. Durante todo o tempo ela falava de suas dores e ele das dele, ambos da sua vida imperfeita e, entre um vento e outro, bem como o balançar das folhas, o som das corredeiras e cachoeiras, começaram a concordar que tudo isso poderia um dia fazê-los felizes. Ela finalmente saiu do galho e, pelo chão por que não conseguia voar, passeavam sentindo prazer em sentir a terra em seus pés e a água quando na margem dos rios. 

Nesta entrega, foram seguindo por meses até que ficou cada vez mais difícil de se afastarem, o que era apenas uma tarde, tomou, também, a manhã e a noite minutos antes de dormirem e cada um ir para suas casas. Ela era a melhor amiga dele e ele era o melhor amigo dela. 

Bianco curioso como é, pedira, algumas vezes e educadamente, que tirasse as folhas para entende-la, mas ela, veementemente, negava. Entre eles era o único segredo que faltava e, por que não, o que os impedia de se envolvessem muito mais do que como amigos. Sim, ela os imaginava juntos, digo mais, sonhava todos os dias em sentir coragem de dizer que o amava. Quanto a ele, mais do que isso, expôs com todo o carinho seus sentimentos e pediu-a em casamento. 

Desnorteada, não soube o que dizer, finalmente o amor verdadeiro que sempre pediu nem que fosse para perder, naquele instante, bateu em sua porta. Não sabia que seria um sentimento tão forte e, aterrorizada, vislumbrou que, aceitando ele, não poderia mais esconder sua imperfeição, pois não concebe o amor sem a entrega dos corpos. Nunca dará certo, foi o que disse, e se escondeu em sua toca. 

Por meses chorava e ele por meses a consolava da porta, determinado como é, disse que não desistiria e ela, como sempre, triste consigo mesma, simplesmente pedia o fim desse amor com alguém perfeito. Ele dizia que a amava e ela também, ninguém sabia o que fazer quando, de súbito, o pássaro teve uma ideia e antes de tudo resolveu avisá-la: “Minhas asas serão como as suas e assim poderemos viver juntos para sempre nesta pequena árvore. Passará a ver este imperfeito como imperfeito.” Ananda, um poço de culpa, concebeu esta realidade como a pior de todas imaginadas... Um ser torna-se igual a ela “por sua culpa”, o que dirá a primeira e única pessoa que amou na vida. Sufocada e do alto de sua dor, expulso-o de sua vida e o fez desistir de forma a voltar, aos prantos, arrasado para sua casa. 

Bianco nunca mais foi o mesmo, desde então os dias tornaram-se iguais, mal começava a manhã e já terminava a noite, parece que alguém roubou sua alma e deixou-o anestesiado. Ananda foi o que sempre quis e sabia que ele era o que ela sempre desejou, entretanto, o desalento imperou. 

Mas o que revoltava mesmo era o porquê da perfeição e da imperfeição, melhor, por que simplesmente as coisas não deveriam ser como eram, isto é, cada ser único em sua beleza particular? Na árvore era perfeito, mas por pensar “fora da caixa” não fazia parte daquele mundo e, mais do que isso, sabia que aquela plenitude toda era uma fuga coletiva, infelizmente o amor da sua vida não conseguia ver isso, pensava que para sempre seria a imperfeita e todos os outros perfeitos. 

Mesmo que outrora expulso, os meses afastados causaram-lhe tanta dor que passou de seu limite, contra a vontade dela e a favor de seus corações retornou. Chegando, encontrou-a deitada e, assim como ele, abatida. Preocupado, percebeu que estava morrendo e, ao olhar os galhos da árvore, constatou o excesso de frutos. Ananda desistiu de alimentar-se, o fim era uma questão de tempo... 

A partir de então, em um vai e volta, voava para fora e retornava com frutas e colocava-as em sua boca, no entanto, mesmo com velocidade lancinante, todos os esforços pareciam em vão. Fraca, passou a delirar... Delirando chorava, delirando pedia desculpas, delirando dizia que o amava e delirando pedia-o em casamento. Sem forças não conseguiu mais segurar as folhas e ele viu a asa menor do que a outra. 

Chorou ao vê-las... 

Aquele detalhe não era nada perto da cor e do brilho de suas penas. Era realmente uma dama bonita aos olhos de qualquer um e, especialmente, dos seus. Não conseguindo conter-se, falou em voz alta: 

Você é a mais linda de todas! 

Os olhos fecharam e passou a respirar com dificuldade. Preocupado, segurou-a e levou-a para a Árvore da Plenitude em busca de socorro médico. A chegada de ambos deixou a sociedade estarrecida, o falatório foi geral. Mas o que se ouvia mesmo eram as seguintes perguntas: 

Como pode o amor unir a perfeição e a imperfeição? Se Ananda morrer, como poderemos ser perfeitos sem a sua imperfeição por perto? 

Colocando-a no galho em frente ao hospital e sem conseguir conter-se, beijo-a com a paz encontrada apenas no reencontro de almas há muitos séculos separadas, contudo, terrificado, sentiu-a desfalecer-se. 

Aquele foi o primeiro e único beijo, Ananda faleceu... 

Aos prantos chorava e dizia que tinha perdido a única perfeição que tivera, o amor de sua vida. Todos ao redor choravam, abraçavam-se... A todo instante indagavam-se se eram felizes, pois perfeitos como são, nunca conseguiriam viver um amor perfeito. A imperfeição virou regra, o paradoxo foi quebrado. 

Bianco afastou-se pouco a pouco andando de costas, sem olhar para atrás sabia do seu destino, caiu de asas cerradas e olhos fechados a uma altura de 30 metros. Despencando, lembrava-se daquele ano perfeito, daquelas conversas imperfeitas e de toda revolução que estava acontecendo na Árvore da Plenitude. Lembrou-se, também, o quanto foram plenos naquela pequena árvore pouco provida de folhas, mas cheia de afeto e sinceridade. 

A vida nem sempre nos dá o que queremos e isso é difícil, a todo instante sentimo-nos mergulhados em um caos onde nada é nosso, o que dirá nós mesmo. A felicidade e a infelicidade são castelos infinitamente em ruinas, tudo desaba. Mas a sede de lutar é permanente, ela nos pertence, com muito custo precisamos entender que perder e vencer são duas faces da mesma moeda. Bianco perdeu ao se jogar, mas venceu por lutar por quem amou genuinamente e, por tal razão, toda fé dedicada ao que mais acreditou trouxe Ananda de volta a vida pouco depois de ter despencado. Ela, ainda confusa, teve apenas tempo de abrir os olhos para, por intuição, jogar-se em direção aonde estava Bianco no intuito de impedir sua chegada ao solo. 

Em queda livre, lembrou-se que não sabia voar, mas lembrando de todo apoio que sempre recebeu de Bianco, desajeitadamente, bateu asas com toda força de seu amor e venceu o que antes considerava impossível, começou a voar. 

Pelo problema que tinha não planava como todos pois, pelo desequilíbrio aerodinâmico resultante de uma asa menor, só conseguia mantê-la no ar ereta e com leves giros. Uma cena angustiante, mas não menos bela. Bianco despencava e ela com todas as forças voava ao seu encontro, mas em um movimento fluido, circular e perfeito que só as dançarinas mais apaixonadas conseguiriam. Uma dança pela vida, uma dança por amor. 

Há poucos metros do chão segurou-o e puxou-o com todas as forças para o ar. Ele, agora de olhos abertos e surpreso, dedicou-se igualmente à batalha pelas suas vidas. Em uma intensidade nunca vista, juras de amor brotavam de seus bicos, abraçaram-se enquanto giravam e tornaram-se um espetáculo para todos que assistiam entorpecidos, a imperfeição das asas de Ananda tornou-os dançarinos apaixonados que, por fazê-los girar juntos, deleitavam a sociedade da plenitude com a soma plástica das cores de suas penas, um caleidoscópio em queda livre. 

Apesar da devoção mútua, o bater das asas não foi o bastante, caíram em terra e voaram para o céu. Ali o amor doce, belo e leve de dois imperfeitos encontrou sua plenitude. Por aqui, estão no bolso de todos para vez por outra, serem retirados e admirados de forma que possam, sorrir ou chorar, livres de qualquer pressão imposta pela sociedade.