sábado, 3 de outubro de 2020

Este, camaradas, é o Zé da Luta.


Seu nome é José Almeida, um sobrenome mesmo, pois ele e nem a mãe sabem quem é o pai. Na vila todo mundo diz que já nasceu perdido, pois filho da puta nem nome todo pode, somente abreviação e olhe lá!

Expressões misógenas, redundantes e repetitivas eu sei, mas em Passarinho dos Pássaros, repetir palavras é uma forma de rir com a desgraça do outro para que não chorem da própria. Existem distritos especializados na venda de bananas, vinho, pescados, doces, cachaças e etc. Mas ali, humilhação tem cotação maior do que a do ouro.

Coitado dele e da puta em si, pois no final das contas a intenção de tudo é injuriá-lo e depreciar aquelas que ganham o seu pão à maneira. Mas olhe, puta não é "puta", é profissional do sexo. Sim, prostituta. Graças a Deus superei este tipo de machismo pois, diferente disso, não estaria com a minha amada, hoje servidora pública.

Sua sina sempre foi subir de cargo muito mais do que ganhar dinheiro, não importava pra que e por quanto, vantagem mesmo era ser chamado de algo maior do que “da Puta”. Dantes um quase escravo, hoje, sente no peito o prestígio de um sacerdote recém empossado, pois na fazenda não é mais obrigado a apanhar merda com as mãos... Foi abençoado com uma pá.

Zé sabe o que faz, só trabalhava com a merda mais próxima da casa do Sr. Milanês que, por sua vez, admirava a destreza do seu funcionário quando fertilizava a plantação de Cebola Chora Lágrimas. Caros, não é pra qualquer um estar diante de tanto mau cheiro e de um legume tão satânico sem que, respectivamente, se torça o nariz e ou derrame uma mínima gota de lágrima!

Apesar da mãe se referir a José só de Zé e por força da maldade de seus vizinhos, acabar chamando-o de “da Puta”, nosso herói já não sentia mais um filho da "puta", agora como a mãe mesma dizia milhares de vezes e toda nervosa para corrigir o erro, na verdade era o Zé da Luta! Homem requintado, funcionário de atividades internas, não come mais acocorado embaixo do pé de sapoti, agora é na mesa do alpendre. Dentro da casa grande.

Como sempre cobrou de si mesmo, não se tornou pedante, ainda procurava a companhia dos colegas da roça e, uma vez reunido com todos, sempre passava umas 2 horas andando no sol quente e repetindo que sentia saudade do cheiro de bosta, pois lá dentro o desinfetante cheirava tanto que queimava a garganta. Falácia, negócio dele mesmo era a sofisticação do lar.

Mas o Sr. Milanês era implacável, de todos os passarensses, sabia como ninguém apelidar. Certa feita, contam os idosos mais idosos que ele, o mesmo ao nascer não chorou, balbuciou apenas algumas palavras, melhor, chamou uma das enfermeiras de fedorenta.

Imagine o estrago quando diante do Zé que, além de filho da "puta", parecia um corvo gripado. Não demorou muito e já foi presenteado com o apelido de "perna de barata". O que concordava perfeitamente, pois só tinha pelos até a metade das canelas.

Este, camaradas, é o Zé da Luta.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Palavras de um homem exótico, estranho e peculiar...


No trabalho, como todo mundo que vive, algumas vezes será maltratada.

Seu esforço não será valorizado, por isso, triste e no final do expediente, fechará a porta do departamento e apagará todas as luzes para que o reflexo da janela não possa atrapalhar a vista da cidade. Não irá para casa, pois lembrou que o que te espera são cômodos de luzes apagadas e, estando lá, acenderia apenas a do quarto para, após despir-se, ficar no escuro, dormir nua e, banhada de hidrantes, entregar-se a um cansaço solitário.

“Do alto, toda dor é insignificante e a vista apaixonante”. Um dia te disse e da janela pode sentir cada palavra.

Vivo com um pé na realidade, como um verdadeiro pai de família cumprindo suas responsabilidades e errando mesmo que desejando acertar. No entanto, o outro vive e sempre viverá quando não em outras galáxias, muito além delas. Tudo muito complexo você dizia, mas um dia te disse: “O mundo é indecifrável e belo”.

Agora, da janela, pode sentir cada palavra, palavras de um homem exótico, estranho e peculiar, entretanto, sensível o bastante para fazê-la sentir-se amada e protegida em todos os sentidos possíveis.

Por diversas razões, disseste que sou um perdido e se perdido é querer o bem, sou sim, mas para que conquiste o que considera impossível, para te aquecer neste cotidiano tão frio, para que, dentro deste mundo tão desamoroso, ame perdidamente quando soar da tua boca uma música de ninar para nossa filha e, uma vez teu corpo estando bem colado ao meu, podermos dançar um jazz lento e suave à meia-luz. Quem sabe “At Last” ao som de Beegie Adair? Sim, nossa música, inclusive, nunca esqueça, nunca mesmo: Sou um perdido porque sou poeta e nesta sorte encontro minha força e lucidez!

Da janela, a saudade bate ainda mais forte.

Neste momento, procura pelas minhas frases que considerava tão maçantes, pois somente elas explicam o que ninguém quer entender, somente elas te resgatam deste vazio por onde anda só e sem rumo. Linda, perdeu-se, mas a vida começa agora, só que intensa, instigante e repleta de cores.

Da janela, sente-se uma poeta.

Dezenas de versos ganham vida no traçado de cada rua, no som barulhento dos carros, nas pessoas correndo pelas calçadas para não perder o ônibus. Tudo é poesia... Você chora copiosamente, mas é de alívio, de gente perdida, gente liberta. Cada gota cai numa métrica perfeita, pintadas por mãos habilidosas e sob a tutela de grandes músicos. Seus sentidos são canetas, pincéis e instrumentos musicais que se encontram no espaço-tempo.

De súbito, a chuva toma conta do lado de fora, um vento forte sopra e de um lance abre a janela.

Em teu rosto água da chuva viram lágrimas e lágrimas viram água da chuva. Por intuição, olha para frente e me vê em pé no topo de uma imensa antena, firme como uma rocha a enfrentar raios, ventanias e uma tempestade torrencial, mas eternamente de braços abertos e com o aquele sorriso que nunca esqueceu. Com amor grito o teu nome e, indecisa, ainda não sabe se suas poesias são fortes o bastante para impedir uma queda. Porém, entre uma rima e outra, sentiu-se levitar....

E pula…

Molhada flutua…

Molhados nos beijamos…

Suada acorda e, amando…

O telefone pega com aflição…

Me liga e diz: Sim, você é são...

Somos poetas, uma poética união...