
Seu nome é José Almeida, um sobrenome mesmo, pois ele e nem a mãe sabem quem é o pai. Na vila todo mundo diz que já nasceu perdido, pois filho da puta nem nome todo pode, somente abreviação e olhe lá!
Expressões misógenas, redundantes e repetitivas eu sei, mas em Passarinho dos Pássaros, repetir palavras é uma forma de rir com a desgraça do outro para que não chorem da própria. Existem distritos especializados na venda de bananas, vinho, pescados, doces, cachaças e etc. Mas ali, humilhação tem cotação maior do que a do ouro.
Coitado dele e da puta em si, pois no final das contas a intenção de tudo é injuriá-lo e depreciar aquelas que ganham o seu pão à maneira. Mas olhe, puta não é "puta", é profissional do sexo.
Sim, prostituta.
Graças a Deus superei este tipo de machismo pois, diferente disso, não estaria com a minha amada, hoje servidora pública.
Sua sina sempre foi subir de cargo muito mais do que ganhar dinheiro, não importava pra que e por quanto, vantagem mesmo era ser chamado de algo maior do que “da Puta”. Dantes um quase escravo, hoje, sente no peito o prestígio de um sacerdote recém empossado, pois na fazenda não é mais obrigado a apanhar merda com as mãos... Foi abençoado com uma pá.
Zé sabe o que faz, só trabalhava com a merda mais próxima da casa do Sr. Milanês que, por sua vez, admirava a destreza do seu funcionário quando fertilizava a plantação de Cebola Chora Lágrimas. Caros, não é pra qualquer um estar diante de tanto mau cheiro e de um legume tão satânico sem que, respectivamente, se torça o nariz e ou derrame uma mínima gota de lágrima!
Apesar da mãe se referir a José só de Zé e por força da maldade de seus vizinhos, acabar chamando-o de “da Puta”, nosso herói já não sentia mais um filho da "puta", agora como a mãe mesma dizia milhares de vezes e toda nervosa para corrigir o erro, na verdade era o Zé da Luta! Homem requintado, funcionário de atividades internas, não come mais acocorado embaixo do pé de sapoti, agora é na mesa do alpendre. Dentro da casa grande.
Como sempre cobrou de si mesmo, não se tornou pedante, ainda procurava a companhia dos colegas da roça e, uma vez reunido com todos, sempre passava umas 2 horas andando no sol quente e repetindo que sentia saudade do cheiro de bosta, pois lá dentro o desinfetante cheirava tanto que queimava a garganta. Falácia, negócio dele mesmo era a sofisticação do lar.
Mas o Sr. Milanês era implacável, de todos os passarensses, sabia como ninguém apelidar. Certa feita, contam os idosos mais idosos que ele, o mesmo ao nascer não chorou, balbuciou apenas algumas palavras, melhor, chamou uma das enfermeiras de fedorenta.
Imagine o estrago quando diante do Zé que, além de filho da "puta", parecia um corvo gripado. Não demorou muito e já foi presenteado com o apelido de "perna de barata". O que concordava perfeitamente, pois só tinha pelos até a metade das canelas.
Este, camaradas, é o Zé da Luta.